Mulheres que cuidam de cônjuges com doença de Alzheimer

 



Esta é uma realidade cada vez mais próxima do nossos dias. É comum passar pelos ambulatórios dos serviços de geriatria mulheres que chegam com seus maridos acometidos pela doença de Alzheimer, ou outras demências que podem ocasionar desequilíbrios na dinâmica familiar. É, sem dúvida, uma caminhada solitária. Por mais que os filhos tentem imergir nesse universo, as história de vida e de afeto pertencem somente ao casal. 

É bem verdade que cada pessoa em sua singularidade enfrenta a tarefa de forma diferente. Em seu livro "Amar o que é: um casamento transformado" Alix Kates Shulman traz uma narrativa comovente sobre a maneira como cuidou de seu marido de 75 anos, que certa noite encontrou caído nu e inerte no chão de sua remota cabana à beira-mar. Scott caiu de um Jirau com aproximadamente três metros de altura e, apesar de ter sobrevivido, o acidente  sofreu lesões importantes que danificaram seriamente o seu cérebro. No livro Shulman descreve tudo o que experimentou quando  resolveu reorganizar a vida para cuidar do marido.  Nessa narrativa "ela descobre que o que poderia parecer uma cruel sentença de vida para alguns evoluiu para algo inesperadamente enriquecedor." 

Em uma pesquisa realizada com mulheres idosas brasileiras e portuguesas que cuidavam de seus maridos, as autoras identificaram que em ambos os países as esposas sentiam-se bem executando a tarefa de cuidar.

No link abaixo está o link do artigo

https://www.redalyc.org/journal/2871/287162798027/html/

No entanto, a pesquisa com esta parcela da população ainda é escassa. Na prática ambulatorial esse não é o desfecho de tantas histórias. A tarefa solitária do cuidado muitas vezes gera uma sobrecarga emocional de grande intensidade. Aceitar as perdas do outro, que em muitos casos foi uma pessoa ativa, autônoma e independente, é um processo extremamente difícil.

Ademais, a mulher passa a assumir um papel preponderante na manutenção da estrutura familiar. Quanto mais velho é o casal, mais complexas são as condições adversas. 

Ainda que o fato de ser cuidado por um familiar possa representar um fator protetor para o idoso, a qualidade de vida desse cuidador é fortemente afetada. Sintomas importantes como:  agitação, agressividade, depressão, ansiedade, irritabilidade ou labilidade emocional podem ser desencadeados causando situações estressantes para ambos.

Cuidar de si e estar atento ao lado emocional constitui uma das tarefas mais importantes. Buscar a ajuda de familiares para ajudar nas tomadas de decisões também é  tarefa imprescindível. Esta não pode ser uma caminhada solitária. 

Outros entes familiares muitas vezes precisam entrar no circuito de ajuda. Porém, é por demais importante que estes respeitem a autonomia de vontade da pessoa que cuida, e também respeitem o ritmo  das tomadas de decisões.

A empatia é sempre a melhor das escolhas. Colocar-se no lugar do outro e perguntar-se: e se fosse comigo, o que eu gostaria que fizessem?



Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Perambulação: como lidar com o idoso

Morar sozinho: Até quando?

Velhos que cuidam de seus velhos: quem vai cuidá-los?