Perambulação: como lidar com o idoso





A perambulação é um comportamento comum para alguns idosos com doença de Alzheimer. A principal característica é um caminhar sem rumo. A pessoa não tem qualquer objetivo. Apenas não consegue ficar parada, sentada ou deitada em algum lugar.

Às vezes, pode ficar irritada ou agitada. Por isso é muito importante que o cuidador ou o familiar fique atento aos momentos que essa alteração começa e tente identificar o que gerou esse comportamento.

As causas para essa alteração são diversas, e em alguns indivíduos, quanto mais a doença evolui, mais alterações de comportamento são observadas.

Importante ressaltar que nem todos os idosos acometidos por doenças degenerativas se comportarão da mesma forma. A doença se desenvolve de maneira diferente em cada pessoa, apesar dos sinais e sintomas serem muito parecidos. Muitas vezes, a habilidade do cuidador ou familiar em lidar com os problemas pode definir como será atitude do idoso.

Muitos idosos com demência têm dificuldades de se comunicar, e a perambulação pode ser um sinal de que algo não vai bem. A agitação pode ser a forma encontrada para mostrar isso.

Algumas condições podem provocar a perambulação: medicação desajustada, Infecção urinária, desidratação, entre outros problemas de saúde. A alteração de comportamento, além de deixar o cuidador ou familiar bastante estressado, pode causar danos ao idoso. Ele pode se ferir no momento em fica agitado e agressivo. 

É fundamental uma consulta com um geriatra, que fará uma avaliação detalhada e solicitará exames específicos para identificar alguma condição que esteja ocasionando a situação.

Porém, antes de recorrer ao médico adote algumas medidas que chamamos de "terapêutica não medicamentosa" e que são necessárias para tornar a vida mais segura e mais tranquila.

 

Olhar atento ao corpo do idoso

Faça um levantamento minucioso para identificar se houve algum elemento que tenha gerado esse comportamento: etiquetas por dentro da roupa, fralda apertada, assaduras, picadas de insetos, tecido que possa causar alergia, roupas quentes em dias de calor ou ausência de agasalho em dias frios, zíper das calças, etc.

Dê uma geral da cabeça aos pés para ver ser há algo que possa incomodar. Dê uma boa olhada na cavidade oral: procure por alguma lesão na boca, ou cacos de dentes que possam provocar dor. Avalie bem os pés: unhas, calosidades ou sapatos desconfortáveis.

 

Ambiente domicílio

 Nos momentos de perambulação há um risco grande do idoso sofrer quedas. É muito importante reorganizar o ambiente domicílio: retire os tapetes de todos os locais, retire a mobília que fica pelo centro. Fundamental que não haja obstáculos na área de passagem.

Fique atento aos objetos espalhados no chão como, por exemplo, os sapatos, os brinquedos de crianças que frequentem a casa, fios, etc. Dê uma olhada geral e bem detalhada no ambiente.

Coloque rede de proteção nas janelas, caso resida em sobrados ou apartamentos. Mantenha um portão que separe o local de passagem, de escadarias.

Observe se há algum espelho. Algumas pessoas acometidas pela doença deixam de reconhecer o próprio rosto, e o reflexo do espelho pode significar para ela a presença de um estranho. 

Retire cabideiros, evite roupas penduradas em cadeiras. Isso pode causar confusão e deixar o idoso agitado. Mantenha o ambiente tranquilo, sem que os eletrônicos (TV, rádio) estejam com som alto.

Evite fazer mudanças significativas na casa: pintura com cores diferentes das cores habituais, mudança de local da mobília, etc. Algumas pessoas vão perdendo a capacidade de reconhecer o seu ambiente, e começam a pedir para ir para a casa. Importante manter tudo da mesma forma.

Observe o conforto das cadeiras, sofás, colchões. Veja se há algo que esteja incomodando: pontas, desníveis, parafusos soltos. Enfim... alguma coisa que possa fazer com que a pessoa não queira sentar ou deitar.

 

Atenção ao aspecto emocional

Avalie se a presença de uma pessoa diferente na casa está gerando alteração de comportamento. Ou também a ausência de uma pessoa. Às vezes, podem se sentir abandonados. Algumas pessoas fazem muito bem e outras fazem mal. Procure distinguir umas das outras.

 

Necessidade básicas

Observe se o idoso está com fome ou sede. Se ele precisa ir ao banheiro. Se precisa descansar. 

É imprescindível lançar mão de uma rotina bem equilibrada desde o momento em que ele se levanta. É preciso organizar os horários das atividades: café da manhã, almoço, lanche, jantar, banho, evacuação, higiene oral, etc. Por mais que seja trabalhoso estabelecer uma rotina, aos poucos você verá como isso ajuda no dia a dia. Importante estar atento, pois muitos idosos ficam agitados e perambulam quando estão com dor, prisão de ventre, fome ou sede.

 

A síndrome do pôr do sol

Alguns idosos sofrem com esse problema. O pôr do sol pode causar desorientação. A pessoa fica sem saber se é dia ou noite. Isso causa uma enorme agitação. Por isso, é importante adotar algumas medidas: ainda no final da tarde acenda as luzes da casa para deixar o ambiente claro antes do sol de por, e siga as demais dicas.

 

A hora de dormir

Alguns idosos têm resistência para dormir. É muito importante criar um ambiente favorável e praticar o que chamamos de higiene do sono. Pra começar lembre-se que uma soneca de 30 a 50 minutos, após o almoço faz muito bem, nos demais períodos os cochilos devem ser evitados. Tente manter o idoso em atividade durante todo o dia. 

Evite bebidas com cafeína a partir do horário do almoço: café, mate, chá preto, refrigerantes. Após o jantar ofereça um chá: camomila, cidreira ou erva doce. Se o tempo estiver favorável e o idoso receptivo, um banho morno vai bem. Passar cremes hidrantes, sobretudo nas pernas e pés, pode ajudar a relaxar. 

Mantenha uma rotina. Um horário fixo todas as noites.  Mantenha roupas de cama limpas e cheirosas. Observe se o colchão e o travesseiro estão confortáveis. 

Coloque uma roupa confortável para dormir, e sempre conforme a temperatura diária. Dê preferência para roupas sem botões, e sem elásticos apertados. Mantenha o ambiente sem ruídos. 

Uma música calma e em som baixo pode ajudar a pegar no sono. Mantenha um abajur com pouca intensidade de luz no quarto, caso o idoso fique desconfortável com o quarto totalmente escuro. 

Se ele tem o hábito de se levantar durante à noite, não use meias ou use aquelas com borrachas antiderrapantes no solado. Isso pode evitar acidentes noturnos.

 

Algumas dicas para tentar ajudar a rotina diária


1) Faça um inventário das atividades diárias durante uma semana ou duas. Desde o momento em pessoa acorda. Anote a hora, a tarefa realizada e como ela reagiu. Ao final avalie os aspectos positivos e negativos até ajustar uma rotina que faça bem ao idoso e que seja consonante com as possibilidades do cuidador/familiar.

2) Mantenha um calendário. De preferência dessas folhinhas que ficam penduradas e têm números grandes. Todos os dias peça para o idoso marcar um X no dia em que estamos. Ajude-o na tarefa.

3) Faça atividades diárias. Caminhadas leves durante a manhã, de preferência antes das 10 horas, para tomar sol. Realize algumas atividades lúdicas que ele seja capaz de realizar: Um jogo de cartas, ou dominó de peças coloridas. Pense no que a pessoa gostava de fazer antes de adoecer e trabalhe com isso. Por exemplo: se gostava de jardinagem, tente ajudá-lo a cultivar pequenos vasos, e vá lhe mostrando a evolução da plantação. Se gostava de pintura, dê lápis, papel, ou até tinta se você estiver por perto. Se a pessoa gostava de cozinhar, não tire esse prazer. Deixe-a na cozinha na hora do preparo das refeições. Dê tarefas conforme a sua possibilidade funcional e cognitiva: catar feijão, lavar o arroz, separar alimentos e lavá-los. Alguns ainda conseguem descascar legumes sob supervisão. Porém, fique muito atento a tarefa que você escolher.

Se ainda gosta de lavar louças, troque os utensílios por materiais de melanina. São plásticos decorados, e não oferecem risco de quebrar e machucar. Enfim, pense no passado e use a sua criatividade.

4) Ouça música. Sempre as músicas que o idoso gostava. Cante junto. Isso trabalha a memória, além de tranquilizar.

5) Deixe as chaves da porta fora da visão do idoso. Se ele perguntar pelas chaves diga que guardou para não perder. Se ele se agitar, mostre as chaves para que ele não se sinta aprisionado.

6) Se ele quiser sair de casa, não contrarie. Diga que já sairão, que estão esperando o táxi. Você pode usar várias justificativas conforme o dia: “vamos esperar a chuva passar, ou esperar o sol baixar”, etc. Nesse meio tempo o distraia para que esqueça o assunto.

7) Se precisar sair de casa, evite lugares com muitas pessoas e diferentes dos lugares habituais. Isso pode deixá-lo confuso e irritado.

8) Faça um cartão com nome e mais de um número telefone de contato. Plastifique e mantenha sempre preso à roupa do lado de fora. De preferência fora do campo de visão dele. Isso é muito importante, caso ele saia de casa e se perca.

9) Caso haja disponibilidade financeira, existem dispositivos eletrônicos que podem ajudar.

10) Mantenha algumas pessoas de sua confiança dentre os vizinhos, porteiro do prédio e comerciantes da localidade, cientes da doença do idoso. Isso fará com que fiquem atentos a qualquer comportamento estranho, e entrarão em contato com a família.

11) Anote tudo o que produz mudança de comportamento e apresente ao médico na hora da consulta. Isso ajudará no estabelecimento de condutas.

12) NUNCA medique o idoso por conta própria. A medicação que faz bem para uns pode não agir da mesma forma com outros. Medicação é coisa séria. Ao invés de ajudar pode piorar.

13) NÃO insista com seu médico para prescrever medicações para dormir ou para deixar o idoso parado em um canto. Isso pode ser prejudicial. Algumas medicações podem favorecer as quedas. Quedas podem ocasionar fraturas e imobilidade. Isso aumentará a sobrecarga do familiar.

14) Não discuta com o idoso. Veja a postagem sobre como se comunicar com idosos com demência.

15)  Se o idoso mostrar desorientação, tente acalmá-lo. Não se irrite. Mostre tranquilidade. Isso vai dar segurança.

16) Para que isso dê certo é fundamental que o cuidador tenha afinidade com o idoso. Cada família tem sua história, seus motivos. Ninguém é obrigado a gostar do outro. Evite que familiares que tenham vínculos conflituosos com o idoso se dediquem à tarefa de cuidar. Isso não será bom para ambos.

17) Se contratar um cuidador formal, siga algumas orientações que estão na postagem “Como escolher um cuidador”

18) Animais de estimação fazem muito bem ao idoso com demência. Escolha animais dóceis. Mantenha-os limpos, tratados e com as vacinas em dia. Dê tarefas ao idoso, como colocar as refeições diárias.

19) Converse com o geriatra sobre a necessidade de avaliação de algum outro profissional como nutricionista, fisioterapeuta ou terapeuta ocupacional. Esses profissionais podem ajudar com estratégias para diminuir a perambulação.

20) Por fim, exercite a empatia. Se coloque no lugar do outro. Pense: “Se fosse comigo, como eu gostaria de ser tratado?”


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Maria Angélica Sanchez

Especialista em Gerontologia

 

 

 


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